Inventar um avô

Resenhas catálogo  |  11.09.2024

Última atualização 31.10.2024

As migrações têm sido, nos últimos anos, um tema de preocupação mundial. Em função de sua intensificação e do número de refugiados em todo o mundo, presentes nos noticiários, a questão parece nova, mas não é. Por motivos os mais diversos – guerras, perseguições políticas e religiosas, condições climáticas, procura por trabalho –, milhares de pessoas deixam suas casas e partem à procura de um país que possa se tornar seu lar. Mais que uma casa e um emprego, o acolhimento de migrantes exige um esforço de trocas culturais e linguísticas e de afirmação de identidades, que nem sempre se colocam em um primeiro momento. A construção do pertencimento a esse novo lugar não é imediato e está marcada por muitas sutilezas – língua, valores, costumes, religião, relações. É de uma família espanhola que chega ao Brasil no começo do século XX em busca de melhores condições de vida – e da formação de sua memória – que trata o bonito Inventar um avô, de Miguel Sanches Neto.

Três filhos adultos, todos com o mesmo nome – e por isso chamando um ao outro de Primeiro, Segundo e Terceiro –, vivem em uma antiga casa de madeira com a mãe já idosa, em uma cidade do interior do país. Controlados pela velha senhora e pela relação de dependência que juntos construíram, os três vivem fechados em si mesmos para manter os costumes da família e a memória do pai, morto quando ainda eram muito pequenos. Até o momento em que o mais jovem, Terceiro, um professor primário, faz a primeira viagem de sua vida e nela descobre o amor e o desejo de conhecer as origens de sua família, desde a chegada do avô espanhol ao Brasil, no começo do século XX.

“A gente fala uma inverdade como proteção, revivendo algo que não queremos revelar nem para a gente mesmo. No domingo, indo para o cemitério, na mão o balde com o frasco de detergente, o rodinho, a bucha e os panos, fiquei pensando no que eu havia imprudentemente pronunciado por uma boca que não parecia minha. Toda uma vida sem nem ir à cidade vizinha, tendo que parar os estudos no magistério por isso, me formando professor primário, e agora essa história de viajar ao Rio. O primeiro erro foi empurrar nossa mãe para fora das ordens prudentes de seu finado esposo. Achamos que já tinha cumprido a cota dela, continuaríamos aqui velando o túmulo, ela estava aposentada de ser fiel. Essa aposentadoria é uma das que nunca vêm.”

Inventar um avô é um romance bonito e sensível sobre memória e identidade, mas também sobre a reinvenção de uma vida comum, no seio de uma família aprisionada por uma ideia de preservação de algo que sequer se compreende o que é. Terminamos a leitura com certa nostalgia, mas solidários a Terceiro, narrador-pesquisador-construtor de sua própria história, tanto a vivida quanto a que exige ser lembrada. Na história dessa família, lemos a de milhares de outras que chegaram ao Brasil no século passado e continuam chegando todos os dias.


Fabíola Farias

Graduada em Letras, mestre e doutora em Ciência da Informação pela UFMG, com pós-doutorado em Educação pela UFOPA. Dedica-se à pesquisa e a projetos sobre leitura, formação de leitores, bibliotecas, livros para crianças e jovens e valorização da cultura da infância.

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